quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Muito mais do que uma imagem: uma história!

    16 de Outubro de 1968. 46 anos atrás. Uma imagem entra para a História!


A imagem abaixo, dois atletas negros fazendo a saudação Black Power, do grupo político radical Panteras Negras, é mundialmente conhecida. O que poucas pessoas conhecem é a história dos homens que fizeram tão corajoso gesto e as conseqüências que eles sofreram durante toda a vida por terem ousado desafiar seu país para dizer ao mundo que os EUA não eram um país democrático e justo.


fato retratado pela imagem foi protagonizado em 16 de outubro de 1968, quando Tommy Smith e John Carlos, respectivamente 1º e 3º colocado na corrida dos 200 metros, resolveram protestar contra o racismo nos EUA no pódio das Olimpíadas da Cidade do México.

Um primeiro detalhe a ser ressaltado é o de que os três atletas que estão no pódio usam no peito, do seu lado direito, um símbolo branco. Era o símbolo do OPHR (sigla em inglês de Projeto Olímpico para os Direitos Humanos). O segundo colocado, o atleta australiano Peter Norman, apesar de branco, resolveu também aderir ao protesto, pois em seu país também havia discriminação étnico-racial contra as populações aborígenes. Norman também arcou com as conseqüências de seu gesto por toda a vida, sofrendo repreensões em seu país.

Uma forma de medirmos a importância dos gestos desses atletas é demonstrarmos como seus países tentaram durante décadas fazê-los cair no esquecimento. Em 2000, durante a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Sydney, os maiores ex-atletas daquele país foram
homenageados, Peter Norman não era um deles. Até hoje o atleta é o recordista australiano dos 200 metros com o tempo de 20.06 s, que fez para obter a medalha de prata nos Jogos de 1968. Em 1992 durante os Jogos Olímpicos de Barcelona os maiores ex-atletas dos Estados Unidos foram homenageados. Nem Smith e nem Carlos foram congratulados com tal honra. O fato se torna ainda mais absurdo quando sabemos que Smith era um verdadeiro super atleta. Para obter o ouro nos jogos de 1968, ele foi o primeiro homem a correr os 200 metros em menos de 20 segundos, quebrando o recorde mundial com o tempo de 19.83 s. Além disso, Smith chegou a ostentar 11 recordes mundiais simultaneamente, sendo 7 individuais e 4 em equipe. Em 1968 ele era o recordista americano dos 100 metros, dos 200 metros e dos 400 metros. Alguns de seus recordes dos tempos colegiais no Lemoore High School permanecem até hoje. Não participarem das Cerimônias dos Jogos em seus países foi um ato político, em um evento em que os países juram ser apolítico.

Rememorando um pouco da perseguição que os atletas sofreram é necessário contar um pouco do contexto que envolveu o ato de Smith e Carlos. Podemos começar pela história OPHR. O Projeto Olímpico para os Direitos Humanos foi fundado no começo 1967, por vários atletas negros. No seu início o objetivo era organizar um boicote dos Jogos Olímpicos da Cidade do México. O OPHR foi idealizado pelo sociólogo universitário Dr. Harry Edwards. Para os membros do OPHR era necessário expor o modo como os atletas negros dos E.U.A. seriam usados para projetar uma mentira, tanto a nível doméstico e internacional. O Dr. Edwards declarou na época “Não podemos permitir que este país utilize um número reduzido de atletas negros para chamar a atenção do mundo de como ele tem feito grandes progressos na resolução de problemas, quando a opressão racial de afro-americanos é maior do que nunca era. Qualquer pessoa negra, que permite-se a ser utilizado no acima assunto é um traidor. Então, nós perguntamos porque é que devemos correr no México?”

OPHR tinha três exigências centrais: 

1.Restaurar a Muhammad Ali o título mundial, despojado no início de 1967, pois o atleta se negou a ir para à Guerra do Vietnã; 

2.Destituir Avery Brundage do cargo de chefe do Comitê Olímpico dos Estados Unidos. O dirigente foi um famoso branco nazista e tinha apoiado a realização dos Jogos de Berlim, em 1936 na Alemanha Nazista; 

3. apoiar a luta dos negros da África do Sul e Rodésia pelo fim do apartheid; 

Os ideais do OPHR estavam sendo discutidos em um ambiente turbulento e contestador. A década de 60 foi um dos mais elevados e, ao mesmo tempo, contestadores período da história moderna dos Estados Unidos. Uma série de lutas ocorriam como o Movimento dos Direitos Civis dos
afro-descendentes, uma crescente preocupação durante a Guerra do Vietnã e os trágicos assassinatos de Malcolm X e Martin Luther King; a militância dos Panteras Negras e da Nação do Islã. Foi também um período inigualável de luta pela libertação dos países Africano do jugo do colonialismo e de uma grande luta para terminar com o apartheid na África do Sul.

Com o passar do ano de 1967 e o início do ano de 1968 a ideia do boicote aos Jogos perdeu força. Um dos poucos atletas negros que boicotaram as olimpíadas foi o lendário o Kareem Abdul-Jabbar, na época apenas um atleta universitário. Entretanto, permanecia forte na cabeça de Tommy Smith e Jonh Carlos fazer algo pelo seu povo.

oportunidade chegou quando os atletas conseguiram chegar ao pódio no México. Antes sairem da Vila para os jogos, Smith e Carlos já combinavam algo, marcaram de ambos levar luvas pretas para o estádio. Após o sucesso na prova, nos vestiários, John Carlos informou ter esquecido suas luvas. Foi aí que entrou em cena o australiano Peter Norman, que deu a ideia de que cada um usasse uma das luvas de Smith. Além disso, decidiu também participar do protesto, usando o símbolo do OPHR.

Smith e Carlos chegam para a cerimônia de premiação. Havia algo de diferente, os atletas vinham usando meias pretas, sem sapatos. Quando o hino dos E.U.A. começou a ser tocado e as bandeiras deste país e da Australia eram erguidas, Smith e Carlos fecham os olhos, abaixam a cabeça e começam o protesto. Depois, Smith e Carlos levantaram a mão direita, com as luvas pretas e de punhos fechado para representar o poder dos negros na América. Os dois com as mãos levantadas representavam a unidade dos negros na América. O lenço preto em torno do pescoço de Smith simbolizava o orgulho negro e as meias pretas (sem sapatos) representavam a pobreza negra na América racista.

Sem ter a dimensão exata na hora, os atletas faziam o que é provavelmente uma das imagens esportivas mais vistas e importantes da história. O gesto foi pouco entendido no momento, mas logo o mundo inteiro comentava o que os atletas tinham feito.

O vídeo com a corrida e a saudação pode ser visto no seguinte endereço http://www.youtube.com/watchv=ocullaGEnY&eurl=http://felipetaves.blogspot.com/2009/03/salute.html.

ousadia do gesto significou o fim da carreira de ambos. Logo depois que retornaram da prova para o alojamento foram expulsos da Vila Olímpica. Depois, ao retornarem aos EUA receberam ameaças de morte, não conseguiram voltar ao atletismo, tendo que de uma hora para outra conseguir outra forma de ganhar a vida. A pressão sobre eles foi tanta que a mulher de John Carlos se suicídio em 1973.

Devido a esta perseguição durante anos ambos pouco falaram em público sobre o episódio. Tocaram a vida como puderam e Tommy Smith se tornou um doutor em sociologia e hoje vive de dar aulas e palestras. John Carlos virou técnico de atletismo e faleceu em 2006.

Recentemente, em 2007, Smith resolveu romper o silêncio e publicou uma autobiografia intituladaSilent Gesture: The Autobiography of Tommie Smith sem tradução para o português). O livro é uma verdadeira lição de vida. Um homem que tem a total dimensão do que representou seu ato e o narra pela melhor forma de vê-lo em profundidade, como um gesto que mesmo feito por um homem representou a luta de um povo.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

De olho em 2016: conheça Isaquías Queiroz

    Hoje falaremos de uma das esperanças de medalha para os Jogos Olímpicos de 2016. É o canoísta Isaquias Queiroz. Passada a Copa do Mundo de Futebol, o mundo dos esportes vira seus olhos para este evento. E o Mais Um acompanha diversos esportes e vai dar seu pitaco sobre alguns deles.

     O Brasil tem pouquíssima tradição na canoagem. A modalidade é disputada em dois estilos: velocidade e slalom. Isaquias Queiroz disputa no estilo velocidade. São disputadas 3 provas neste estilo nas Olimpíadas (C1 200 metros e C1 1000 metros (individuais) e C2 200 metros (dupla). Antes de Isaquias Queiroz, o nome mais conhecido neste esporte tinha sido Sebastian Cuattrin, um argentino naturalizado brasileiro. Diferentemente de Queiroz, Cuattrin competia no caiaque (K). Ou seja, na modalidade slalon. Cuattrin medalhou em panamericanos e participou das Olimpíadas de Atenas, em 2004.

     Isaquias Queiroz já pode ser considerado o melhor atleta brasileiro na modalidade de toda história. Os olhos da impressa e do mundo se voltam para Queiroz desde 2011, quando ele ganhou duas medalhas nos Jogos Mundiais Junior de canoagem. Nesta competição, o atleta ganhou duas medalhas. Uma na prova não olímpica do C1 500 metros (prata). Outra a medalha de ouro na prova olímpica C1 200 metros. Com esse feito, se tornou o primeiro atleta brasileiro a ser medalhista em um mundial da categoria.

     

     O atleta fez muito bem a transição de júnior para profissional. Em seu primeiro mundial, em 2013 na Alemanha, conquistou duas medalhas. Bronze na prova olímpica do C1 1000 metros. E ouro na prova não olímpica do C1 500 metros. Mais uma vez, foi o primeiro atleta brasileiro a conseguir tal feito. Na transição do júnior para o adulto, o atleta decidiu não competir no C1 200 metros.

    Este ano, Queiroz começou muito bem! Primeiro na etapa da Copa do Mundo de canoagem, ocorrida em maio na Itália, ganhou duas medalhas. Ouro no C1 500 metros. E bronze no C1 1500 metros (não olímpica). No mundial o atleta teve uma participação quase perfeita! Bateu recorde do mundial no C1 500 metros nas semifinais e ganhou o ouro novamente. No C1 1000 metros a medalha de ouro não veio por pouco. O atleta caiu da canoa a poucos metros do final da prova e foi desclassificado. Mas não parou por aí. Visando os jogos olímpicos, o atleta começou este ano a competir com Erlon de Souza na prova C2 200 metros. E a estreia foi excelente! A dupla foi medalha de bronze!

    Ainda faltam dois anos para as Olimpíadas. Mas sem dúvidas, Isaquias Queiroz tem feito um ciclo olímpico excelente e vai se tornando um dos poucos atletas brasileiros a ter chances reais de medalhas em 2016! O Mais Um vai acompanhar a trajetória do atleta!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A primeira derrota de Hitler: Jesse Owens e a vitória da humanidade

               
           Em 2013 completava-se 100 anos do nascimento de uma das maiores lendas do esporte mundial: Jesse Owens. Por coincidência, ou não, neste ano estreou no mundo todo o filme “A menina que roubava livros”, ambientado nos anos da 2ª Guerra Mundial. Em uma das cenas as personagens Liesel e seu amigo Rudy protagonizam uma das mais belas partes do filme. As crianças apostam corrida pelas ruas do bairro e Rudy se pinta de carvão para ficar negro, pois seu ídolo era ninguém menos do que Jesse Owens, que poucos anos antes da cena retrada no filme havia derrotado a ideologia nazista nas Olimpíadas de Berlim em 1936.


                Além da belíssima homenagem a este ícone do esporte, a cena nos mostra como muitos seres humanos se recusaram a aceitar a ideologia antiluminista de superioridade racial, que é a base do Nazismo. Um menino ariano no auge do Nazismo sonhando em ser um negro! Esta é uma das várias leituras que podemos ter sobre a vida de Jesse Owens. Inspirador de igualdade, de utopias! O homem que provocou a primeira derrota de Hitler! No último dia 03 de agosto completou-se 78 anos desta derrota.    O ano era 1936 e Hitler estava há três anos no poder e via seu governo se consolidar, criando uma hegemonia nazista na sociedade alemã.  Neste contexto, as Olimpíadas seriam a coroação da superioridade ariana perante o mundo. Hitler havia investido muito para realizar a maior Olimpíadas da história. O estádio de Berlim, por exemplo, era o maior do mundo, com capacidade para mais 100 mil pessoas. Além disso, nesta Olimpíadas Hitler testou seus mecanismos de propaganda, pois o evento começou a ser gravadas e exibidas mundo afora. Mas ao invés da superioridade ariana, Hitler teve que ver atletas negros americanos vencerem diversas provas.
                Os Estados Unidos levaram 16 atletas afro-americanos para as Olimpíadas de Berlim, em 1936, desses 06 ganharam ouro no atletismo. Um deles foi o primeiro a derrotar Hitler, mesmo que simbolicamente, nestas Olimpíadas. Cornelius Johnson venceu a prova do salto em distância, no estádio de Berlim lotado com mais de 100 mil pessoas, diante de Hitler, que para não ter que cumprimentar e premiar Cornelius abandonou o estádio. E não pode mais voltar, pois os atletas afro-americanos dominaram as provas de atletismo, sendo Jesse Owens o maior deles! Vejamos um pouco mais da vida deste herói negro ...
                Jesse Owens nasceu em 1913 em Oakville, sul dos Estados Unidos. Era neto de escravos, filho mais novo de 7 irmãos. Ainda criança, ele e toda sua família mudaram-se para Cleveland, norte dos Estados Unidos, fugindo da opressão racial que imperava no sul daquele país. Essa migração não foi algo especifico da família Owens. Entre o fim da escravidão nos Estados Unidos em 1865 e as primeiras décadas de século XX, mais de 1,5 milhões de afro-americanos migraram do sul para o norte daquele país.
                Jesse Owens foi um atleta espetacular. Desde sua carreira na High School ele simplesmente destruía os recordes americanos nas provas de 100 metros, 200 metros e salta em distância. Em 1928, ele bateu o recorde Junior nacional na prova dos 100 metros rasos. Daí em diante, tal feito seria algo corriqueiro na vida dele. Venceu todas as competições estaduais e nacionais. Na High Scholl bateu o seu primeiro recorde mundial, na categoria junior, no salto em altura, em 1930.  E ingressou na Universidade de Ohio em 1931, aos 18 anos. Não conseguiu bolsa e além de competir e estudar, trabalhava a noite como garçom, como operador de elevadores, como bombeador de gás e numa biblioteca. Mesmo assim, sua carreira atlética seguia brilhante!
                Em 1935, conseguiu o que para muitos até hoje é o maior feito esportista na história. No campeonato nacional americano, Owens bateu 4 recordes mundiais no mesmo dia, com um intervalo de apenas 45 minutos! Consagrou-se vencedor nas 4 provas em que seria medalhista de ouro olímpico: 100 e 200 metros, revezamento 4 x 100 metros e salto em distância. Sendo assim, Owens já chegou nas Olimpíadas de Berlim como uma estrela do esporte americano.
                Nas 4 provas que competiu, Owens confirmou seu favoritismo e venceu. Em nenhuma delas Hitler estava no Estádio Olímpico de Berlim. Os negros norte-americanos dominaram as provas de atletismo e o chefe máximo do Nazismo não queria ser humilhado e entregar as medalhas de ouro. Owens foi o primeiro atleta a ganhar 4 medalhas de ouro em uma mesma Olimpíadas. E assim permaneceu por muitos anos. Apenas em 1984 outro atleta negro, Carl Lewis, igualou tal feito no atletismo.
                Mas as vitórias de Owens não pararam por aí. Ao regressar aos Estados Unidos, ele se deparou com todo o racismo da sociedade norte-americana. Anualmente o maior atleta dos esportes amadores americanos era presenteado com o troféu (ver o nome ... nova pesquisa). No ano de 1936 o premiado foi Glenn Morris, atleta branco vencedor do declato nas Olimpíadas de Berlim. O troféu era entregue numa suntuosa cerimônia na Casa Branca pelo presidente norte-americano. Neste caso, Franklin Roosevalt. Sobre este episódio, Owens escreveu em sua biografia: "É verdade que Hitler não me cumprimentou, mas também nunca fui convidado para almoçar na Casa Branca".
                Neste mesmo ano, a Federação Americana de Atletismo retirou a licença de esportista amador de Owens. O que naquele contexto significa parar de competir, pois só atletas esportistas amadores competiam. Com isso, Owens chegou a correr contra cavalos para conseguir seu sustento. E mais, durante as décadas de 1940 e 1950, quando ainda estava no ostracismo em seu país, trabalhou com jovens carentes em Cleveland.Trabalho que faria por toda a vida. Criou a instituição Chicago Boys, que atendeu mais de 150 mil crianças ao longo da vida de Owens.
                Na década de 50, ele sai do ostracismo público e começa a trabalhar para o estado, sendo contratado Especialista de Esportes do Estado de Illinois. Em 1955 foi nomeado pelo Departamento de Estado nacional como Embaixador do Esporte. No cargo, viajou por diversos países e foi o representante dos Estados Unidos nas Olimpíadas da Austrália de 1956.
                Mas é apenas em 1976, após as lutas por direitos civis dos negros, das quais Jesse Owens nunca participou ativamente, que a lenda vida dos esportes é recebida na Casa Branca. Na data recebe a maior honraria civil nos Estados Unidos, quando o presidente Gerald Ford presenteou-o com a Medalha. Em fevereiro de 1979, retorna para a Casa Branca e é recebido por Carter, que lhe presenteia com o Living Legend Award. No ano seguinte, Jesse Owens falece devido a um câncer no pulmão.

                Considero que Owens é o maior ícone do esporte da história. Suas vitórias nas Olimpíadas de Berlim simbolizaram a luta humana contra a tirania, a pobreza e a intolerância racial.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Quem construiu Tebas, a das sete Portas? Trabalho escravo nas obras para a Copa de 2022

Qual a imagem do Catar que você vê na imensa maioria dos jornais? Possivelmente de extrema luxuosidade. É a fundação Catar patrocinando o Barcelona. Os prédios gigantescos e suntuosos deste território do chamado Emirados Árabes Unidos. O fato de ser o país com a maior renda per capita do mundo. E, agora, a cereja no bolo. O país, sem qualquer expressão futebolística, sediará a Copa do Mundo de 2022 em escolha comprovadamente corrupta. Mas será que esta é a realidade das pessoas que vivem de seu trabalho no país?

Infelizmente, a resposta é não. O jornal inglês The Guardian dando continuidade à série de reportagens "escravidão nos dias modernos em foco" mostra como luxo e pobreza são faces da mesma moeda, pois reportagem do jornal (ver aqui) constatou a existência de trabalho análogo à escravidão nas obras dos estádios da Copa de 2022! Para construir o “fántastico mundo da Fifa” os cataris terão que desembolsar bilhões de reais, fazendo a festa das diversas famílias reais do território, pois são as mesmas que controlam toda a economia local. E o trabalhador que irá construir tais “maravilhas da arquitetura”? Afinal, como tão bem disse Bertold Brecht, no famoso poema "Perguntas de um Operário Letrado": "Quem contruiu Tebas, a das sete Portas?/ Nos livros vem o nome dos reis,/ Mas foram os reis que transportaram as pedras?". Também no Catar, os verdadeiros autores da transformação estão longe da suntuosidade mostrada na TV sobre aquele país.

Centenas de trabalhadores vindos do Nepal, do Sri Lanka ou da Índia trabalham em condições que caracterizam a aproximação com a escravidão. Ou seja, não recebem salários, vivem em condições sub-humanas e tem graves restrições no direito de ir-e-vir. Mais uma vez, o máximo da ostentação e da teconologia convive com o maior grau de exploração! Em apenas dois meses, período da reportagem, foram constatadas a morte de 24 pessoas. Continuando nesse ritmo, até a Copa de 2022 mais de 4 mil trabalhadores perderão a vida!

A entidade máxima do futebol, FIFA, tem centenas de páginas de exigências dos países que irão receber seus eventos, lucra bilhões com o esporte que mais mobiliza seres humanos ao redor do globo e não exige qualquer tipo de protocolo para que o evento cumpra padrões sociais mínimos. No Brasil, a Copa do Mundo já desalojou centenas de pessoas. E o filme se repete no Catar/2022. Tal fato em nada me surpreende, dada a forma como tais eventos são gestados e organizados. O máximo de lucros para os que comandam são sustentados pela exploração do trabalhador. 

Fica a pergunta, até quando?

domingo, 28 de julho de 2013

Lutar, lutar, lutar ... E lutaram, venceram: Atlético Mineiro Campeão da Libertadores 2013!

               No hino do Atlético Mineiro duas palavras se destacam: lutar e vencer. São as palavras que mais se repetem ao longo da música que é entoada euforicamente pela torcida do Galo em cada jogo. Pois bem, a torcida e o time do Atlético fizeram jus à canção e lutaram muito durante toda a Libertadores! Cada jogo no horto era um espetáculo a parte. Honram o nome e a história de 105 anos do clube.
                O Galo não ganhava um título de repercussão nacional e internacional desde 1971. Mesmo tendo times como o de fins dos anos 70 e início dos anos 80. Ou o vice-campeão brasileiro de 1999. Entre os 12 clubes considerados grandes no país era o maior jejum. Entretanto, a falta de títulos nunca foi um empecilho para a torcida atleticana! Nos tempos em que morei em Minas, o Atlético estava na segunda divisão. E mais, no começo do campeonato estava na zona de rebaixamento. Mesmo assim, a torcida lotava o Independência. Ali, percebi que o dito que qualificava o time como “massa” era mais do que verdadeiro! Aqueles sujeitos que individualmente pouco representariam, ao se somarem e acrescentarem o amor ao time formavam algo grande, forte, homogêneo e capaz de crescer, como também se solidificar igualmente a uma massa!
                A torcida atual do Galo sempre teve dimensão das limitações do time nos últimos tempos, quiça décadas. Não era a qualidade técnica do elenco e nem os títulos que formavam a identidade, o elã para formar uma torcida apaixonada. Mas, sim, a luta, a raça de todos aqueles que torcem para o Galo. Pois bem, agora, além desse elã há um time que alcançou o título mais cobiçado atualmente por qualquer clube brasileiro. A alegria de dizer “Galo Doido” ou “Galão da Massa” vai ficar estampada nos rostos de cada Atleticano por muito tempo. E, mais do que isso, caso o tempo empoeire o título, a alegria continuará inexorável. Como diz o hino: “nosso time é imortal!”

                Parabéns Clube Atlético Mineiro! Galo Forte e Vingador!

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Barcelona e o jeito 'simples' de jogar futebol

   Poderia falar sobre uma imensidão de detalhes do jogo entre Barcelona e Milan, ocorrido ontem 12/03. Mas falarei de apenas um deles e o que mais me chamou a atenção ontem: a troca de passes rápida e precisa.
   Esse time do Barcelona há anos é marcado por fazer questão de ter a posse de bola. E marcar sobre pressão para obter a pelota quando a mesma está com o adversário. Pois bem, essas duas características do time, aliadas à genialidade de seus jogadores, arrasaram com o time rossonero.
   Dos quatro gols do Barcelona, três foram marcados após recuperar, rapidamente, a bola. O segundo, o terceiro e o quarto gol. Essa rápida recuperação da redonda se alia a uma impressionante troca-de-passes entre três ou mais jogadores, destruindo o sistema defensivo adversário. E mais, toques rápidos, precisos sem que cada um dos jogadores fiquem mais do que poucos segundos com a bola. A regra é dar um, dois ou, no máximo, três toques. Vejamos uma análise de gol por gol.
   No primeiro tento do time blaugrana, o único que não foi feito após uma retomada rápida da bola, o Barcelona trocava passes em busca da hora certa, do momento exato para atacar. Em um momento que a grande maioria dos times buscariam jogo pela lateral, ou fariam troca-de-passes pouco produtivas, o Barcelona ataca e pelo meio-do-campo, na entrada da área. O Milan tinha uma linha de 5 marcadores dentro da área e mais três na entrada da área. Dos 11 jogadores, apenas 1 estava atrás da linha da bola. Como passar por uma linha defensiva assim? Pergunte ao Barcelona! A jogada começa com Iniesta, que toca para Pedro, este de primeira aciona Busquets, que domina e toca na meia lua da área para Messi. O genial tabela com Xavi e coloca no ângulo. 1 a 0! Durante toda a jogada apenas Messi e Busquets tocaram mais de uma vez na bola. E deram, somente, dois toques! Mais um detalhe, quando Messi finaliza, o Milan tem 9 jogadores dentro da área e o time blaugrana tem, apenas, dois. Messi e David Villa. 
   Se com a defesa adversária postada o Barcelona faz assim, imagine ao roubar a bola ... Iniesta retoma a pelota já no campo-de-ataque, avança e toca para Messi, que domina, com mais um toque joga a bola para o lado esquerdo e finaliza. Gol! 2 a 0.
   Segundo tempo. O Milan tenta sair com a bola, Mascherano dividi. A redonda sobra para Iniesta. De primeira para Xavi. Para não fugir a tradição, de primeira para David Villa. Um toque para dominar e, ao mesmo tempo, deslocar o corpo na direção do gol. Um toque para finalizar. 3 a 0!
   Por fim, o resultado classificaria o Barcelona. Mas um gol do Milan reverteria a classificação para o time rossonero. Então, pressão do Milan, que ataca com praticamente todo o time. Perde a bola próximo à área do Barcelona. Contra-ataque. Bola para Messi no meio-campo. Por necessidade ele domina, fica com a bola alguns segundos para que seu time avance e se poste para o contra-ataque. Como em uma aula, um jogador do Barcelona passa pelo lado direito (Alex Sanchis). Dois avançam pelo lado esquerdo (Jordi Alba e Adriano). Messi toca para Alexis.  De primeira, como quase sempre nesse time, ele inverte a bola para Jordi Alba. Dois toques na bola, um para o domínio e outro para o chute. 4 a 0!!!!
   Festa no Camp Nou. A energia contida, junto à raiva devido as desconfianças que colocaram em cima deste time explodem! Quase cem mil pessoas cantam, festejam, celebram a beleza de um jogo que o Barcelona pratica como nenhum outro na história do futebol. 


   Nos quatro gols do Barceloa apenas Messi, no segundo e no quarto gol, e Iniesta no segundo deram mais de dois toques na bola. Nenhum drible para que acontecessem os gols. E, apenas no segundo gol somente dois jogadores participaram do ataque que resultou no momento sublime do futebol. 
   Jogo coletivo. Tanto na troca de passes de que participam praticamente todo o time, como na marcação que envolve, aí sim, todo o time. Ataques verticais em direção ao gol, somado ao famoso não está mais comigo. E, claro, técnica dos jogadores que conseguem colocar em prática tal jogo. 
  Antes de começar a partida, um torcedor do Barcelona disse "nosso time jogando como sabe é invencível". O resultado comprova que ele estava certo!
   

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Chantagem Olímpica


Essa semana, em caráter de urgência, a Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro recebeu um projeto vindo do executivo que é elucidativo de como a Copa da Mundo e as Olimpíadas se tornaram um dos principais motores para que a iniciativa privada lucre com o apelo popular desses eventos em detrimento do público.  E mais! Com total anuência e ajuda de nosso governantes. Assim, se configura uma remodelação dos espaços públicos em um projeto de elitização, que chamo de Faxina Étnica! Vamos explicar essa história.

O projeto de Lei enviado à Câmara propõe alterações em uma Zona de Conservação da Vida Silvestre (ZCVS) na região da reserva florestal de Marependi, zona oeste da cidade, também conhecida como Barra. Pelo mesmo, essa ZCVS poderá em uma área de 58 mil metros quadrados ter um campo de golfe construído e, também, abrigar prédios de mais de 20 andares, quando o antigo padrão era de 6 andares. Aparentemente, algo normal na vida de grandes cidades brasileiras. Mas não é bem assim.

Primeiramente pela relação existente entre a empresa responsável pela construção, tanto do empreendimento imobiliário como do campo de golfe, a RFZ Cyrella e de um dos seus acionistas o italiano Pasquale Mauro, conhecido grileiro de terras no Rio de Janeiro.

A área em que se situa tanto o empreendimento imobiliário, como o “futuro”  campo de golfe são fruto de ferrenha disputa pela posse da terra entre Pasquale Mauro, a ELMWAY Participações e o espólio de duas outras pessoas. Este caso está no Supremo Tribunal de Justiça e, por ora, a posse do terreno continua com Pasquale Mauro. Entretanto, a ELMWAY já disse que ganhando a disputa tem outros planos para a área. Além disso,  Cyrella e outras empresas do ramo são uma das principais doadoras para a campanha de Eduardo Paes, mostrando a relação entre empreiteiras e esse grupo político na cidade do Rio de Janeiro.

Além disso, no processo que dá a posse de terra ao Pasquale foi julgado por Luiz Sveiter em outubro do ano passado, quando este presidia o TRJ/RJ. Cruzando dados sabemos que a Cyrella tem negócios com o escritório de advocacia da família Sveiter e, também, a Cyrella doou dinheiro para a campanha do, agora, deputado federal Sergio Sveiter. Sendo assim, Luiz Sveiter deveria se declarar inapto para julgar o caso. Como não o fez, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em dezembro do ano passado abriu processo contra o desembargador Luiz Sveiter. Como se vê, não existe fronteiras entre os interesses do grupo Cyrela, o judiciário e o executivo do Rio de Janeiro.

De acordo com o prefeito do Rio de Janeiro a prefeitura não gastará um centavo com a construção do campo de Golfe. Toda a construção será bancada pela construtora Cyrella em contrapartida da construção de um conjunto de prédios na região. Cabe ressaltar que o valor de mercado do terreno em que se construirá o Golfe é de R$ 2 bilhões e 200 milhões de reais. E o valor da construção seria de R$ 60 milhões. Cabe perguntar. Qual empresa faria essa doação bilionária sem interesses para além do resort? Além disso, o terreno não passará para a posse para o estado. O uso será de 25 anos. Depois desse período o terreno volta para as mãos da iniciativa privada.

É uma influência no modo de governo que vai para além dessa região e afeta todo o estado do Rio de Janeiro. A Copa do Mundo e as Olimpíadas são catalisadores de uma forma de gerir o estado que é elitista e contrária aos interesses do bem comum. Expulsão dos moradores para áreas distantes, favorecimento das grandes empresas do ramo empreiteiro, financiamento de campanha de políticos tudo se fecha em um mesmo projeto de cidade.

Tudo em nome das Olimpíadas. É um novo tipo de coação, a “Chantagem Olímpica”.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia 10 do Mês da Defesa do Pênalti do Marcelinho, Do ano I, da Era de São Marcos: voltaremos!


Passaram-se pouco mais de 48 horas do rebaixamento da Sociedade Esportiva Palmeiras. O segundo em 10 anos! Um time da grandeza do Palmeiras não merece ser tratado dessa forma por uma geração de dirigentes amadores e que se preocupam com vagas em estacionamento, saunas e outras pequenezes enquanto rebaixam um dos titãs do futebol nacional.

Não a toa centenas de palmeirenses protestam contra a diretoria do clube em várias cidades do país! O presidente Tirone logo após o rebaixamento perguntado sobre o futuro, respondeu que o futuro era o hoje. Um presidente do Palmeiras que não consegue planejar o futuro do maior campeão nacional de nosso futebol? E que no dia seguinte vai para a praia do Leblon! Definitivamente nosso clube está nas mãos de amadores, para dizer o mínimo. Sobrenomes de conselheiros do Palmeiras me fazem pensar que estamos diante uma “casa real” digna de histórias do Cervantes pelas tantas trapalhada ques fazem!

E diante dessas trapalhadas surge a torcida palmeirense, uma verdadeira Dom Quixote que acredita e luta para recolocar o time no lugar que merece!

Uma torcida que há mais de década faz movimentos para se associar ao clube, virar conselheiros, influenciar a política do clube com um plano definido para a modernização do futebol e que este ano alcançou uma primeira grade vitória com a aprovação da eleição direta para presidente! Retiramos um pouco do poder deste Conselho Palmeirense que pensa e age como se vivesse em uma ordem feudal. Nosso conselho não passou pelo Iluminismo!

Não tenho dúvidas de que a torcida do Palmeiras será o principal alicerce para a nossa volta. E aqui não há nada de ufanismo. Cada palmeirense sofreu muito no domingo. Chorou, entristeceu. É o contrário. Sabedores da pequenez de nossas últimas diretorias é que o palmeirense se politiza. Talvez nenhum outro torcedor no Brasil precise se preocupar mais com o fora de campo e menos com o time e com a arquibancada.

Não imaginamos que o amor que sentimos pelo Palmeiras é maior ou menor do que o de outras torcidas. Outros times do mundo passaram por situações piores e se levantaram.

Apenas amamos esse clube! A beleza do amor pelo clube é isso. Não enxergamos apenas aquilo que o rebaixamento revelou. Vemos não aquilo que o Palmeiras é. Mas aquilo que foi e que pode e será! E essa é a beleza de nosso amor pelo Palmeiras.

Por isso, sabemos dimensionar a grandeza dessa instituição. Somos o maior campeão nacional, com 11 títulos, do maior país do mundo quando falamos de futebol! A perseguição que nossos ancestrais sofreram por sua origem italiana se tornou orgulho de mostrarmos o azul e o vermelho e nos chamarmos de palestrinos. Viver décadas sobre a nefasta influência daquele que nem merece ter seu nome escrito gerou um movimento de nossa torcida único no país. Um movimento que essencialmente de fora (torcida) para dentro (administração do clube). Muitos de nós queríamos apenas fazer o que gostamos: torcer para o Palmeiras. Mas hoje isso não é suficiente. Temos que torcer e politizar o Palmeiras. E é isso que faremos!

Sofremos? Sim! Mas só quem ama sabe o que é sofrer! Voltaremos!

PS: No dia 04 de janeiro de 2012 São Marcos do Palestra Itália anunciava sua aposentadoria. Naquele mesmo instante se iniciava uma nova era no Futebol. A Era São Marcos. E como toda nova Era, ela precisa de um calendário próprio. Este, como tantos outros, tem origem solar. Mas nosso sol é o grande ídolo São Marcos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

1714 ou 17:14

O ano era 1714. A Catalunha, mais uma vez, luta por liberdade contra Madri. Na batalha a derrota. No ideal o fortalecimento da nação catalã. Passam-se quase 300 anos. Agora o local da batalha é o estádio do Barcelona, Camp Nou. Mais uma vez, de um lado a Catalunha. Do outro Madri. Aos 17:14 a batalha sai do campo e vai para a arquibancada. Todo o estádio se levanta, bandeiras da Catalunha surgem de todos os lados. O estádio é "pintado" de vermelho e amarelo. Praticamente 100 mil pessoas girtam: Liberdade! Como dizem as várias bandeiras que todo jogo do Barcelona em casa se estendem no estádio: Catalunha não é Espanha. 

O Futebol extrapola fronteiras, mesmo que não o queiram os que dizem comandar o mesmo. Por isso todos os torcedores do Barça dizem: mais que um clube!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

De volta ao lugar que nos cabe

Os últimos 13 anos, desde o título da Libertadores de 1999, são um hiato dentro da história super vitoriosa da Sociedade Esportiva Palmeiras. Pois bem, ontem o sentimento advindo da vitória e que ajudar a sedimentar o amor da torcida foi solto mais vez. E da melhor forma possível!

O enrendo foi dos melhores possíveis. Pelo local, pelo técnico que nos levou ao título, pela festa. Foi no Couto Pereira, no local em que sofremos uma das maiores goleadas, 6 a 0, ano pasado. Uma derrota que para muitos da impressa e para torcedores de outros times demonstrava o caminho que o Palmeiras tomava nos últimos anos, Menos para nós, Palestrinos! Ser Palmeirese é ser consciente dos problemas que afetam nossa diretoria, participar de uma torcida que faz campanha por Diretas Já, caso único no Brasil, talvez no mundo. E, principalmente, ser consciente da imensidão que tem a camisa verde e o time de Palestra Itália. Então, o título de ontem veio remomerar essa rica história.

Sendo assim, na noite de ontem, estávamos todos de volta ao Couto Pereira. 5.000 mil palmeirenses estavam lá, no estádio. Outros milhões estavam pelo Brasil todo. Cada torcedor palmeirense estava com sentimentos ambíguos. De um lado a angútia e o sofrimento pelos anos sem títulos. De outro, a certeza de que um time como o Palmeiras um dia retornaria ao lugar que lhe cabe. A vitória, o título e a grandeza fazem parte de nosso DNA!

O jogo passou, a vitória veio, o grito foi solto e o país voltou a ver aquilo que nós palestrinos temos certeza: Palmeiras decampeão nacional! O maior campeão nacional do país. 

Somos a única equipe do Brasil que ganhou todas as competições nacionais que aconteceram no Brasil. Taça Roberto Gomes Pedrosa, Taça Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e até um pequeno torneio, que só ocorreu uma vez e fomos campeões, Copa dos Campeões.

Por isso: Aqui é Palestra!

domingo, 13 de maio de 2012

Como alguém pode não gostar deste negócio


Manhã de domingo, como amante do futebol, sabia que a possibilidade de ver a emoção estampada nos rostos do torcedor, a melhor imagem que este esporte pode propiciar, estaria presente na Inglaterra.

Disputavam o título Do Campeonato Inglês as duas maiores torcidas de Manchester e duas das maiores torcidas do país. De um lado o poderoso Manchester United, 19 vezes campeão inglês e a maior potência do futebol daquele país nos últimos 20 anos. Do outro, seu maior rival, Manchester City, 3 vezes campeão, mas que não vencia um Campeonato Inglês desde 1968, que ficou de 1978 até 2011 sem conquistar um único título. Mas que, mesmo assim, tem a maior torcida da cidade de Manchester, em um desses fenômenos de paixão, amor, desprendimento que fogem à lógica do capitalismo.

Para melhorar ainda mais o enredo, o Manchester City tirou uma vantagem de 8 pontos de seu maior rival e chegou na última rodada empatado em pontos, mas com melhor saldo de gols. Uma vitória simples lhe daria um título a muito esperado pelos torcedores do City.

O Manchester United enfrentaria o Sunderland. O Manchester City o Queens Park Rangers. Enredo melhor do que este impossível!!!

O estádio do City estava lotado. Sua torcida alegre, cantando, empolgada. Começam os jogos. Aos 20 minutos do jogo do United, Rooney faz 1 a 0. O título iria para o lado vermelho de Manchester. Pouco depois no jogo do City, aos 38, Zabaleta faz 1 a 0 para os azuis. A torcida grita, canta e vê o que pareceu por décadas inalcançável chegar. Eram crianças, homens, mulheres, senhores. Todos unidos por uma paixão: seu time! Uma paixão que tem no grito de campeão um momento crucial, mas, sem dúvidas, o City mostra que são os laços de solidariedade que envolvem sua torcida que fazem o City ser do tamanho que é.
Começa o segundo tempo. A torcida azul toma seu primeiro baque. O QPR empata com gol de Cisse. O título volta para a metade vermelha. A partir daqui quem ama futebol se apaixonou pelo jogo. A angústia toma conta da torcida do City. O título tão esperado não viria? Barton, jogador do QPR, é expulso. Um pouco de alegria volta aos rostos da torcida azul. Entretanto, aos 20 minutos do segundo tempo, o QPR virá com gol de Mackie. Pesadelo?

A angústia começa a predominar na torcida do City. Um jogador a mais, mas seu time não faz gol. O tempo passa, todos ficam de pé. O goleiro adversário começa a “fechar o gol”. Os minutos continuam passando e nada de bola na rede. Alguns rostos já começam a passar da angústia para a tristeza. 40 minutos de jogo. Lágrimas caem dos rostos de alguns. 45 minutos. Acabou? Não!

Aos 46 Dzeko faz o gol de empate. A torcida vibra, explode. A esperança que não tinha acabado volta a dominar a todos. O gol deixa o QPR na lona. Na saída, ao invés de tentar manter a posse da bola, o time dá um chute para a linha de fundo. Na torcida, todos de pé, nervosos, ansiosos, emocionados. Mãos na cabeça, pulos. Em um lance, o jogador do City deixa a bola sair pela linha lateral. Mas a bola não é do time azul. Um torcedor começa a jogar sua camisa contra a arquibanda, totalmente revoltado. Não se podia perder nenhum milésimo segundo em busca do sonho!

A bola voltou para o City. Aguero a domina na interdiária do QPR, pelo lado esquerdo. Avança. Balotelli, de costas para o gol, se prepara para fazer o pivô. Aguero vê, toca para Balotelli e avança, cruzando o campo da esquerda para a direita. A torcida do City vê no lance a última possibilidade de ser campeão. Todos em pé. Balotelli domina a bola, cai, mas mesmo no chão rola a bola para o lado direito. Aguero continua avançando e com o mesmo toque em que domina a bola, finta o zagueiro. Fica de frente para o goleiro. A torcida do City está prestes a explodir, a feição dos rostos que tanto mudou ao longo dos 90 minutos pode se transformar totalmente. Aguero chuta. Gol! A torcida do City transforma-se e todos, agora, tem um único sentimento, a alegria. Aguero corre em direção à torcida que pareceu ser tomada por uma hecatombe de entusiasmo. Todos gritam, se abraçam, pulam, cantam. A emoção da torcida invade os jogadores, técnicos. Não é mais a razão que domina a todos os azuis. É a emoção. Emoção esta que domina e que é a parte fundante de toda torcida. Não são mais jogadores em campo, são todos torcedores.

O juiz apita o fim da partida. Agora é real, o título é do City. A torcida invade o campo, um torcedor ajoelhado, paga promessa, que talvez já durasse décadas. Agora, milhares de torcedores estão no campo, que deixa de ser verde. Agora é azul!

Eu, deitado em uma cama, a milhares de quilômetros de distância, também me emociono. Não torço para o City. Mas como estes sou apaixonado por futebol e por um time de futebol. Os diferentes sentimentos que aqueles torcedores passaram, são sentimentos que já passei. Compreendo cada grito, cada choro, cada sorriso, cada palavrão que ali aconteceram, pois, no fundo, nossa paixão é a mesma: o futebol.

O comentarista da ESPN, Mauro Cezar Pereira, profere duas frases que sintetizam as emoções que esta arte chamada futebol produzem em bilhões de pessoas “Como alguém pode não gostar deste negócio” e “A melhor invenção do homem”.

terça-feira, 27 de março de 2012

De mãe para filho

O texto que segue abaixo foi escrito pela irmã de um companheiro de paixão verde, membro do fórum de discussão 3vv, Wagner Gimenez. Já foi publicado pelo blog do Juca hoje de manhã. Mas sem modéstia, já havia pedido autorização ao Wagner Gimenez, tio do Dante e irmão da Erika Gimenez Barbuglio, antes do Juca Kfouri postar o texto. A narrativa expressa como o futebol se mistura com outros dos grandes amores do ser humano, o filial e o maternal/paternal. Simplesmente belo!

POR ERIKA GIMENEZ BARBUGLIO*

Domingo tinha tudo para ser um dia mais que especial… e foi!

Desde o começo do ano, aquele garotinho, de uma hora para outra, passou a ser assíduo telespectador dos jogos do Palmeiras.

Não que tenha se tornado torcedor do Verdão apenas agora, isso provavelmente ele já é desde o ventre materno, palmeirense.

Como bem se sabe, filho de palmeirense quase não tem escolha, e quando é atingido pela febre verde, torna-se doente de vez.

Mas como criança, menino no auge dos seus 5 anos e alguns meses, não tinha ainda a paciência necessária para se concentrar nos 90 minutos de bola rolando, ao contrário do primo, de mesma idade, mas com outras cores no coraçãozinho.

Assim, após uma dose deliciosa e muito bem vinda de invencibilidade, com gosto de quero mais, passou a torcer, vibrar, pular, e a ter no olhar aquele brilho tão familiar, aquela febre tão verde…

Descobriu um novo ídolo, um Pirata, já que o Santo se afastara e o Mago, em retiro, buscava reinventar suas magias!

Vibrou com uma assombração aos adversários nas cobranças de falta, gritou gol no meu colo muitas e muitas vezes, fez dancinhas, girou a camisa no ar, pulando na bancada e no sofá de casa…

E deu seus primeiros passos na complicada arte dos xingamentos, sob um olhar preocupado, que alertava: “No jogo, pode… Mas só durante o jogo!”.

E ganhando esse importante aval, deliciava-se proferindo impropérios ao juiz da vez, muitas vezes nem sabendo o que dizia, me olhando de canto de olho enquanto eu, segurando o riso, ensaiava uma bronca: “Que foi, mãe ? Só no jogo… né?” .Coisa de moleque.

E coisa linda de se ver…

Antes que o politicamente correto entre em campo, eu sei que não parece certo, que os pais não devem incentivar seus filhos na arte do xingamento. Só que, para quem gosta de futebol, ou melhor, para quem ama o Palmeiras, o momento de duração de um jogo é um parêntese mágico na vida real, um instante de pura epifania…

Significa estar também em campo e, para um moleque como ele, tudo naquele espetáculo é fabuloso, são onze guerreiros, onze heróis que deveriam saber que a paixão de meninos como Dante está na ponta da chuteira, na garra de cada um, na vontade de vencer.

Cometer tais traquinagens faz parte da vida e logo mais ele dirá palavrões com os colegas, procurará seus significados no dicionário…

Por mais bobo que possa parecer isso significa amadurecer e tornar-se homem, e no que depender de mim, ele será um grande Homem, mesmo xingando o juiz durante o jogo!

Não foi o primeiro clássico da vida de Dante, outros tantos aconteceram desde o finalzinho de 2005, quando nasceu.

Mas foi um dos primeiros que ele se lembrará para o resto da vida, o primeiro assistido do início ao fim…

Com certeza, terminou sendo um dia de grande aprendiza do, de entrega, de paixão, de experimentar aquela montanha russa de emoções que significa ser palmeirense: da euforia à desolação em minutos!

Nós, pessoas grandes e crescidas, sabemos bem o que é isso, vivenciamos essa experiência tantas e tantas vezes antes. Mas ele ainda não sabia…

Em sua curta vida, estar invicto há tantos jogos era uma eternidade.Provavelmente ele não se lembrava de como era terminar um jogo derrotado.

Sentiu anteontem, no clássico, esse gosto terrivelmente amargo para um menino.

Sentiu o golpe, sofreu, chorou, se desesperou.

Como mãe, eu gostaria de ter o poder de tirar dele essa dor, de dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, uma bobagem sem nenhum significado, apenas um jogo…

Apenas um jogo…

Mas como eu poderia dizer isso ao meu filho se eu, tantas vezes, me senti como ele?

Se eu, tantas vezes, quis gritar, chorar, quebrar coisas, e perguntar “porquê”?

Como adulta, eu jamais poderia agir dessa maneira, deixando a emoção mandar, mas ele, menino que acabara de completar seis anos, desenhando um Pirata num navio lançando de seus canhões bombas com o símbolo do Palmeiras, como poderia agir diferente?

E então, num momento catártico, deixei que ele colocasse para fora o que sentia, assistindo com muita dor meu filho sofrer, pela primeira vez, pelo Palmeiras, sofrendo junto, inutilmente. Ele estava sendo humano, demasiadamente humano, tentando reagir com diversas emoções conflitantes ao mesmo tempo.

De todas as heranças que os filhos herdam dos pais, o time do coração é questão das mais complexas.É bom ter a companhia dele na torcida e na vitória, mas vê-lo sofrer assim na derrota é muito doloroso.

Talvez fosse melhor esquecermos essa história de futebol e focarmos no que é importante da vida. Mas que graça teria?

Precisamos de ritos na vida moderna, e o futebol, embora seja comercialmente algo de potencial sem precedentes, cumpre essa tarefa.

Filho, você é um companheiro maravilhoso.

Inclusive na arquibancada…

Vê-lo cantar o hino, vê-lo torcer, receber seu abraço eufórico na comemoração do gol é algo que não tenho como descrever.

Mas saiba que em todas as derrotas que virão também estaremos juntos, íntegros, mais fortes e sábios, e aos poucos você aprenderá a lidar com elas, no campo, e, principalmente, fora dele. Eu te quero feliz, meu Principito!

Sobre o clássico perdido, só posso te dizer que a vida é assim, um dia ganhamos, no outro perdemos.

Mas, segura em minha mão, pois, permaneceremos, cantando, vibrando e ostentando a nossa fibra.

*Erika Gimenez Barbuglio é formada na Faculdade de Letras da USP e diretora de Recursos Humanos.

domingo, 4 de março de 2012

Racismo e Homofobia no esporte. Qual lição podemos aprender?

Na última quarta, 29/02, em Belo Horizonte, o jogador Wallace do Cruzeiro/Sada e da seleção brasileira de Vôlei ia para o saque contra o Vivo/Minas. Quando ele, e muitos outros no estádio, ouviram declarações racistas contra o mesmo de vários torcedores que o chamaram de "macaco". As agreções continuaram durante todo o jogo. Ao final da partida, indagado sobre o episódio, o jogador disse que quase ficou fora de controle pela humilhação que sofreu.


Casos de racismo contra esportistas são comuns na Europa, principalmente de jogadores origem/ascendência africana e sul-americana. Já no Brasil nos últimos anos vimos casos de jogares de futebol agredirem outros jogadores com palavras de cunho racista. Entretanto, a torcida proferindo palavras de cunho racista contra um esportista no Brasil, eu não me lembro de ter ocorrido. Mesmo que em um ginásio de Vôlei ser muito mais fácil de escutar uma agressão do que em um estádio de futebol. Além disso, dado o contexto mundial de aumento da xenofobia e do racismo no mundo, esse caso deve ser tratado com a maior atenção possível pela sociedade, pelos clubes de vôlei, pela CBV e pelo estado brasileiro.

Pois bem, no jogo seguinte, sábado, 03/03, o time do Wallace recebeu em Contagem o Vôlei/Futuro, que quando entrou em quadra, mostrou gestos que merecem todo destaque. Os jogadores entraram com a camisa do time sem a logomarca do patrocinador. No lugar os dizeres “VF Contra a Discriminação”. Além disso, todos os jogadores do Vôlei/Futuro estavam com o nome de Wallace, ao invés dos seus, na camisa. Para coroar, a camisa era toda preta.

Mais uma vez o time de Araçatuba teve uma atuação da mais dignas e que merece elogios. Lembremos que ano passado um jogador da equipe, Michael, sofreu agressões verbais homofóbicas em um jogo do Vôlei/Futuro contra o mesmo Cruzeiro/Sada. E a equipe tomou a causa do jogador para si, fez campanha contra a homofobia e o caso ganhou repercussão nacional, contribuindo para o debate contra a homofobia em nossa sociedade.

Agressões homofóbicas e racistas são comuns no cotidiano brasileiro e a sociedade e o estado muitas vezes não atribuem a devida atenção às mesmas. Além disso, ambas são fenômenos associados ao que o século de XX de pior legará para a humanidade, o totalitarismo/fascismo presente no indivíduo e na sociedade. Ou seja, esses casos expressam um sentimento por parte do indivíduo, ou de parte da sociedade, que considera que determinadas características suas (cor da pele e opção sexual) faça com que sejam melhores do que outras pessoas e que, por causa disso, as pessoas que não partilham de suas características perdem totalmente ou em parte sua própria humanidade.

Ganha maior destaque o fato de que em ambos os casos o ofendido foi uma pessoa considerada com um status maior pela sociedade, pois são atletas. E o agressor é um comum, um torcedor. Assim, o grau de superioridade que se atribui o sujeito é tão alto que ele agride até mesmo um atleta. Se faz isso com os mesmos, imagine o que não faz na vida cotidiana com pessoas que nossa sociedade atribui um status inferior?

Com tudo isso, quero dizer que se a homofobia chega até aos atletas, pessoas com status superior em nossa sociedade, e proferidas por torcedores é porque o nível de fascismo presente na sociedade alcança níveis preocupantes e devem ser tratados com toda seriedade pelos atletas, clubes, confederações e, principalmente, pela sociedade e pelo estado brasileiro!

Assim, a atitude do Vôlei Futuro de denunciar e apoiar os agredidos em ambos os casos merece aplausos e colocam o esporte no patamar que realmente é o seu: de uma prática cultural que mantêm intima relação com a sociedade e, que por isso, tem uma função social a desempenhar para a qual não pode virar as costas!